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29/01/2008 19:42
Aí cada um entra no metrô/ônibus/trem ou coisa que o valha e fica quieto no seu canto com seu MP3 no ouvido. Quem não está usando, escuta só aquele chiadinho chato que entrega qual ritmo a pessoa ouve. Muitas vezes uma mistura enorme de chiados diferentes que faz aquilo parecer um ataque de grilos e cigarras.
Depois as pessoas chegam nos lugares para onde iam e continuam com seus fones de ouvidos. Cada um ouve uma música diferente, e às vezes até a mesma música, mas cada um para seu lado.
Legal ter privacidade, mas ouvir música poderia ser uma coisa mais interessante. Passei a adolescência inteira ouvindo música com os amigos. Isso mesmo! Cada um pegava suas raridades, fossem elas um vinil pirata, uma fitinha cassete ou um CD e nos dirigíamos à casa de alguém para compartilharmos a música. Não era como enviar um arquivo MP3 por e-mail. Não era assim, nós nos reuníamos e passávamos um tempo ouvindo música, trocando opiniões, fazendo comentários e sociabilizando.
Existiam os já antigos walkmans e os discmans mas o bom mesmo era bombar as caixas de som com alguma novidade ou uma velharia rara. Eu tinha um orgulho enorme de uma fita pirata do Zeppelin com versões ao vivo de músicas pouco óbvias como Hot Dog, por exemplo. E o mais legal era juntar os amigos para mostrar o que você tinha conseguido.
A facilidade de se obter músicas pela internet acabou um pouco com a graça dos bootlegs, afinal de contas, qualquer um pode conseguir aquilo, nem precisa se matar muito de procurar, mas em compensação isolou as pessoas um pouco mais. Isso fez com que cada um ficasse na sua própria casa baixando mais e mais coisas, às vezes muito mais do que o cara vai ouvir, mas como é fácil conseguir, tome quantidade.
A grande facilidade de obter música pela internet, também criou, ou pelo menos potencializou, um personagem bem desagradável: o cuzão vanguardista. É aquele cara que fica fuçando nas profundezas da web tentando achar bandas novíssimas que ele nem sequer gosta, mas como só ele conhece, vai sair dizendo que é o máximo. Ele vai ter as musiquinhas no seu MP3 e vai dizer pra todo mundo o quanto a banda é genial e vai revolucionar o rock. Isso até ele descobrir que mais duas pessoas estão ouvindo aquilo. A partir daí ele passa a dizer que a banda ficou muito pop e mainstream e volta para o computador para achar algo que só ele conheça.
O legal de música é você ouvir, compartilhar, cantar junto, trocar idéias, mostrar coisas novas aos amigos e ficar feliz por saber que alguém mais compartilha o gosto por aquele som, ser surpreendido por alguma coisa que você nunca tinha ouvido antes e entender que vale a pena passar um tempo com pessoas com quem você tenha algo em comum.
enviada por Ricardo
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