Cronicas do Absurdo

23/05/2008 20:28
Eu nunca tinha visto um sarraceno antes. Não eram comuns por aqui. E eu, apesar de ter vagado de um canto a outro, jamais tinha saído da Britânia, mas aqui em Lundewic havia gente de todos os lugares. Estes, vim a saber depois, vinham do sul, da Hispânia de onde tinham expulsado os Godos.
Os homens chamavam a atenção por sua pele morena, barbas e cabelos pretos e vestes leves e impressionantemente limpas. Havia um traço de requinte e suntuosidade em tudo o que possuíam. Desde a decoração do punho de suas espadas até as camisas de placas douradas dispostas como escamas que lhes serviam de malha.
Quando chegamos em seu acampamento próximo às margens do Temes, junto a seus barcos, notamos também que eram tão perigosos quanto refinados. Longas espadas curvas, saif como diziam, para os guardas próximos às tendas e arcos curtos para as sentinelas escondidas a bordo de seus navios.
Tinham fama de produzirem o melhor aço do mundo e era por isto que estávamos ali. Era pela fama de seus ferreiros que enfrentávamos os implacáveis negociadores de pele escura.
A paz com estes mercadores era extremamente delicada e sempre suspensa por um fio. O menor deslize de qualquer dos lados poria tudo a perder. Isto porém não lhes diminuía o ímpeto e a arrogância ao negociar. Faziam-se de ofendidos com a nossa mera presença e ameaçavam ir embora por qualquer motivo. Tratavam-nos com um desprezo velado de quem se julga superior e cobravam preços ultrajantes porque sabiam que eu tinha os dinamarqueses às minhas fronteiras e que precisava das armas.
De minha parte, tinha o ouro, minha espada, dois soldados comigo e o resto de meu exército esperando um leve sopro na corneta de chifre para invadir e destruir todo o acampamento dos sarracenos. Mas não poderia ser assim. No próximo verão eu precisaria de mais espadas e embora quisesse trucidar todos aqueles que em minha terra se recusavam inclusive a falar meu idioma, comportava-me como se nada anormal acontecesse.
Eu olhava o riso cínico do homem enrolado em panos brancos à minha frente, sentado em almofadas coloridas, com as mãos cheias de anéis de pedras preciosas e engolindo uma fumaça perfumada que saía de uma garrafa e imaginava seu crânio partido pelo fio de minha espada.
Ele sentia meu ódio e retribuía, mas também precisava de mim, por isso tolerava minha presença imunda maculando seus finos tapetes. Por um lote de trezentas espadas, me levou trinta libras de ouro, um barco e seis escravas dinamarquesas ainda jovens demais para casar.
Fui para casa com minhas espadas, deixei uma guarnição de trinta homens vigiando os sarracenos no porto e o desejo de sangue preso no peito.

enviada por Ricardo






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